Talvez o coração seja o órgão mais valente do corpo humano. Sede poética dos sentimentos e das lembranças colecionadas pela alma, o coração aperta, acelera, "explode", aquece, endurece, esfria, derrete, e ainda é o ultimo a parar de funcionar. Como aguenta tanto, não sei. Acredito que foi feito para sustentar a vida no corpo e por isso não desiste; bate no compasso e no ritmo das emoções que vivemos. É como um baú, daqueles que guardam um monte de coisas importantes, dividindo espaço com outras não tão importantes assim. Há que abrir o coração de vez em quando, examinar bem o que se tem guardado, separar o que se deve manter do que já não serve mais. Não serve mais porque o tempo passou, a gente cresceu, a gente mudou. Chega de guardar sentimentos mesquinhos, recordações desnecessárias; chega de guardar quinquilharia, de pintar de esperança o que já desbotou. Há que desocupar espaço para que caibam as flores, os sorrisos, os amores alegres e benfazejos.
Costumamos dar mais atenção ao que os outros veem em nós do que ao que só nós podemos ver... assim, cuidamos do corpo e da aparência, mas descuidamos da alma, da mente, das emoções. E estes são os recursos que teremos quando nos faltar a aparência, a juventude e a força. Se lhes déssemos a mesma atenção, certamente estaríamos mais saciados. Mas a verdade é que colecionamos toxinas. Estamos intoxicados. Não filtramos o que entra em nossa mente e retemos tudo, seja bom ou ruim. Acumulamos coisas no baú dentro do peito e as esquecemos lá... Um dia isso vai doer. E quando a dor chegar, então nos lembraremos de abrir o coração, de esvaziá-lo um pouco das coisas que carregamos. O desapego dói, mas alivia o peso. Faz parte da felicidade abrir mão.
