"Ai, mamãe, eu me machuquei...!" - minha menina de 7 anos chorava enquanto me contava que havia chutado o pé da cadeira. "Ah, filha, isso dói tanto! Vem cá com mamãe..." - foi o que respondi enquanto consolava minha garotinha e esperava a dor passar.
Pode soar estranho, mas como é bom quando a gente sabe onde está doendo... quando a dor é no pé, no dedo cortado, na cabeça que bateu numa janela, no joelho esfolado. Quando o medo é do merthiolate, do médico, do motorzinho do dentista, da injeção, do remédio de gosto ruim, do escuro, de ficar sozinho... Hoje em dia não choro por essas coisas, mas sei o quanto elas doem aos 7 anos e por isso não desprezo nenhuma lágrima dos meus filhos. Logo, logo, eles também não vão mais chorar (pelo menos não mais por esses motivos).
Hoje minhas dores são outras e às vezes nem sei onde dói... Meus medos também são do meu tamanho e algumas vezes são maiores do que eu. Ficar sozinha hoje é relaxante e não me assusta mais; o quarto escuro me faz dormir e não vejo mais sombras na parede; não escuto barulhos de noite e sei que não há nada embaixo da minha cama além de um par de sapatos uma vez ou outra... Hoje a dor irradia, não sei se de dentro para fora ou se de fora para dentro. Não melhora com merthiolate ou pomada, nem com um beijinho. Hoje minhas dores têm nomes, têm histórias, têm datas. No meio da tempestade, deixei a janela aberta e o vento forte me adoeceu... mas não culpo o vento, quem deixou a janela aberta foi eu. Meu coração não aguentou o frio e se partiu. E infelizmente não há remédio para corações partidos, decepção ou rejeição, nem para abandono, traição, culpa ou indiferença, nem para sonhos cancelados, sensação de fracasso ou de tempo perdido. Para essas dores, não há remédio que se compre. Talvez um abraço verdadeiro console, talvez um gesto acolhedor alivie; com certeza uma oração sincera traria descanso; pode ser que uma palavra acalme e uma boa conversa ajude. Mas a realidade é que a dor é de quem sente. Ainda que alguém se solidarize, não há como saber. Só Jesus conhece, porque foi experimentado em dores. Quando a gente cresce, a dor vira amiga. A criança chora e corre para braços que lhe confortam, mas e agora?! Para quem corro eu, se nem sei dizer onde dói? Se quem me sara também me causa dor? Se quem me faz sorrir também me faz chorar? Se quem tem as palavras certas tornou-se carcereiro delas? Corro pra Deus. Queria ter 7 anos. Queria o colo, o afago e a simplicidade das dores inocentes. Mas escuto uma voz, uma voz remota, me dizendo aqui dentro: "Isso dói tanto, minha menina... fica quietinha, que já vai passar." Então eu fico. E espero que não demore muito.
