22 de janeiro de 2014

Cama Dura e Sonho Bom

                                

Deitou-se, mas a cama era dura. Dormiu mas não descansou. E sonhou, mas melhor que não houvesse sonhado. Acordou, mas o sol não brilhou, e andou descalça sobre a grama espinhenta. À noite, o céu lhe pareceu um toldo negro e a lua cheia lhe trouxe nostalgia. Quando viu uma estrela cadente, fez um pedido que não foi ouvido. 
As cores em tons pastéis e as músicas em tom menor, traçaram rascunhos borrados de uma história não contada. E as palavras, que outrora lhe sorriram, se voltaram, zombeteiras.
O caminho florido virou labirinto e as retas paralelas, paralelas como são, nunca mais se encontraram, nem ao menos se olharam. 
Caiu a chuva e alagou tudo. A inundação impediu-lhe o passo e lhe escorreu dos olhos.
A essa altura, quis voltar no tempo para estender sobre a cama um edredom floral perfumado. Quis voltar para regar a grama e que ela ficasse verdinha. Sentar à sombra para um piquenique farto de conversas e risadas. Quis beber de novo o melhor dos líquidos, sorver com gosto e transbordar de alegria. Quem lhe dera sonhar um sonho bom e acordar feliz com o sol a prometer um dia azul! Quem lhe dera uma noite brilhante de lua branca e que a estrela cadente lhe atendesse o pedido!
Desejou ardentemente uma tela nova na qual pudesse pintar em cores vivas a sua vida de tons pastéis, ao som de uma música baixinha, em tom grave, da qual jamais se esqueceria!
Quem dera seus esboços fossem apagados e seus tortos rabiscos fossem substituídos por traços firmes! Que estes traços desenhassem uma casinha simples no meio do mato, rica em paz, onde pudesse fazer as pazes com as palavras, quem lhe dera!... Quem lhe dera achar a saída do labirinto e encontrar outra vez o caminho florido, colher as flores todas para enfeitar a casinha no mato! 
Com as retas paralelas, sonhou traçar uma estrada  e desejou seguir por ela, com sol ou chuva... mas que a chuva levasse embora as folhas secas e levantasse um cheiro de mato, de terra molhada, onde pudesse semear tanto amor quanto fosse possível... nas terras da tal casinha... que ela acreditava ser branca, com varanda, uma biblioteca e um jardim de azaleias. Deitou-se, e, em pensamento, foi até a casinha no mato. Viu as flores no caminho, viu uma rede na varanda e viu o seu amor. Até esqueceu que estava deitada numa cama dura.


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