(...) "Esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que estão diante de mim, prossigo..." Há mais de dois mil anos o apóstolo Paulo disse isso. E vejo o quanto se aplica aos nossos dias essa necessidade de "deixar" para "prosseguir". Tantas coisas não se encaixam mais e teimamos em mantê-las. Atitudes, lembranças, comportamentos e sonhos, quais roupas apertadas que já não cabem... gerando insatisfação e ansiedade. Parece que todo tipo de contentamento é provisório: tão logo conseguimos realizar um desejo ou alcançar um objetivo, vem uma sensação de "não-era-bem-isso-que-eu-queria"... Acredito que a insatisfação é a mãe do avanço. Ela nos impulsiona a buscar e nos responsabiliza. É suficiente para, pelo menos, nos tirar do lugar onde estamos. Mas, se não for seguida de atitude, a mera insatisfação não nos leva a lugar algum, por si só, estar insatisfeito é mera pirraça. Corremos o risco de não avançar se ficarmos presos a uma época da nossa vida, a pessoas e a lembranças. Há coisas que devem ficar, mas insistimos em que nos acompanhem. E o que advém disso é baixa produtividade e dificuldades que não se podem prever, que começam com planos equivocados e sonhos inviáveis e geralmente terminam em frustrações. Não atingir os objetivos ou não ter os desejos realizados, dói. Por outro lado, lidar com a realidade das conquistas também pode ser doloroso, diante de um possível despreparo emocional. Daí, duas tragédias em potencial.
Falar em "prosseguir" nos faz pensar no futuro e obviamente o amanhã nos preocupa. Pensamos mais em onde queremos chegar e menos em como queremos chegar. Tão importante quanto pensar no futuro é a conquista do "aqui e agora". A vida é feita de muitos "aquis" e "agoras", e corremos o risco de não desfrutá-los se o nosso foco está nos "alis" e "aléns"... E a nossa visão é distorcida.
Desconfio que mais importante do que o destino e a chegada, é a maneira como estamos indo. A forma como sentimos a respeito dos outros, de nós mesmos e das circunstâncias, determina o quanto somos "felizes". Disse que desconfio, porque é uma constatação que tenho sido levada a fazer em minha própria experiência. Me esforço bastante por trabalhar meu pensamento a fim de produzir bons sentimentos. Fico pensando: em tempos tão estressantes como os atuais, em que ofende-se por tudo e não se surpreende com nada, será que existem pessoas felizes realmente ou todos estão buscando o "ali" e o "além"? Sinceramente não sei o que responder. As pessoas parecem estar correndo atrás de algo, mas com os pés acorrentados a experiências anteriores, e esse "algo" parece estar correndo delas. Pode ser que nem mesmo saibam atrás de que correm, por que se ofendem e o que sentem. Tão somente não se vêem e menos ainda ao outro. Assim vão, simplesmente passando pela vida numa existência insípida - o que considero trágico, visto que viver é tremendamente significante. Saber o que se quer, definir-se, portar-se em conformidade com as próprias escolhas, é algo muito bonito e igualmente difícil. Mas em sentido contrário, saber que não quer nada e assumir essa postura, não deixa de ter o seu valor. Triste é quando uma pessoa passa a vida decidindo um monte de coisas que não vão mesmo realizar-se. E eu peço licença ao poeta pra dizer que tal pessoa é a mosca que caiu na sopa - atrapalha e ainda pode fazer mal. Fica, muitas vezes, à margem de si mesma, à margem da sociedade, à margem do caminho, no meio do caminho. Meio do caminho é onde estão as circunstâncias, os desejos, as aflições. A ansiedade no seu ápice. Um provérbio chinês diz que "os caminhos existem para jornadas e não para destinos. Assim que, conseguindo ou não o que desejamos, é primordial seguir em frente. No meio do caminho as coisas não se resolvem... Chegar é a recompensa pra quem não desistiu.
Enfim, acho que viver é um prazer tremendamente assustador. Quanto às tragédias ou comédias da vida real, sugiro chorar de rir. Estamos todos passando por aqui, todos, sem exceção... Se pudermos resguardar o brilho dos olhos e a pureza de um sorriso sincero, se soubermos usar a insatisfação, a indignação e a frustração como combustível para o nosso avanço, então o "aqui e agora" será contentamento e o "ali e além" será êxito.

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