
Tem gente que tem problema de memória. Não pela falta, mas pela presença dela. A HSAM é a sigla em inglês para a Síndrome da Memória Autobiográfica Altamente Superior ou Hipertimesia. Uma doença raríssima, diagnosticada em cerca de apenas 20 pessoas no mundo.
A síndrome não permite que o portador se esqueça de nada de sua vida ou de fatos dos quais tenha tido conhecimento. Ou seja, se aconteceu, a memória registrou. Um fato ocorrido há três anos será lembrado como se houvesse acontecido hoje. Ir à padaria, à casa de amigos, reuniões de família, datas importantes, momentos especiais, antigas amizades, fatos históricos, recordações felizes, nada será esquecido. Coisas corriqueiras serão tão lembradas quanto coisas importantes. Isso parece bom, ainda mais pra quem anda esquecendo as coisas...
Mas não posso deixar de pensar em outras situações que, por causa da doença, jamais seriam esquecidas: a perda de um familiar, um fracasso, uma lembrança triste, uma traição, a perda de um amor, uma vergonha, uma sensação ruim, medo, raiva, culpa, abandono, imagens, um dia difícil, entre tantas coisas que ninguém gostaria de ficar lembrando.
Assim que o esquecimento, nesta ótica, é saudável. É parte da vida. É importante e necessário. Uma lembrança pode cair no esquecimento por várias razões, conscientes ou não. Mas seja como for, é um instinto de sobrevivência. Quando algo nos atinge profundamente, ou quando palavras são duramente proferidas, marcando nossas emoções de alguma maneira, é possível que tal lembrança se arquive em uma gaveta remota da memória e que não tenhamos mais acesso a ela, além de somente vagas e incertas lembranças. É um jeito inconsciente de não reviver aquilo que foi extremamente impactante, porque, relembrar é tornar a sentir as emoções já vividas. Como uma fuga, até mesmo irracional, simplesmente esquecemos.
A vida é uma sucessão de acontecimentos bons e ruins. Uns marcam, outros ensinam e tudo pode ser aproveitado. A memória requer treinamento, estímulos e estratégias pra que não apague o que vale a pena ser lembrado. E precisa de clareza e diálogo proativo a fim de reeditar as informações guardadas e lembrar sem dor daquilo que já doeu muito um dia. Guardar mágoas, ressentimentos e lembranças tristes, ocupa muito lugar de armazenamento e resulta em coração apertado, semblante caído, olhos sem brilho e sorrisos sem graça. Não quero ouvir minha voz interior dizendo que o espaço é insuficiente pra eternizar minhas lembranças felizes... Não posso me esquecer de lembrar disso. Tenho esse dever pra comigo mesma.
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