A gente tem um tal de dizer "que guarda as coisas no coração". Quando eu ouço ou falo isso, imediatamente minha mente processa a figura de uma caixa. Deixe-me descrevê-la.
É uma caixa, como um pequeno baú, talhada em bronze, decorada com extrema delicadeza e riqueza de detalhes, arrematada com veludo e cetim no seu interior. A chave tem um segredo único e não tem cópia. Dentro desta caixa eu tenho guardado os tesouros da minha vida. São lembranças, pessoas, sentimentos, verdadeiros souvenirs da minha alma.
Abri a caixa há algum tempo. Estava bem bagunçada, precisando urgentemente de alguma organização. Dentre muitos guardados antigos e outras aquisições recentes, encontrei muita coisa boa e outras nem tanto assim. Confesso que não foi fácil. Separei as lembranças felizes das que me causavam qualquer tipo de estranheza. Sim, devia contemplá-las, uma a uma. Então comecei pelas que me faziam sorrir. Como eram lindas estas lembranças! Embrulhei-as em papel de seda pra não amarelarem com o passar do tempo, era importante que eu as conservasse. Separei as lembranças tristes. Embora me fizessem chorar, vi o quanto é difícil a gente se desfazer delas, porque elas nos garantem um pouco de piedade. Mas o saldo não é positivo. Chega. Rasguei-as todas e joguei num saco preto de lixo.
É uma caixa, como um pequeno baú, talhada em bronze, decorada com extrema delicadeza e riqueza de detalhes, arrematada com veludo e cetim no seu interior. A chave tem um segredo único e não tem cópia. Dentro desta caixa eu tenho guardado os tesouros da minha vida. São lembranças, pessoas, sentimentos, verdadeiros souvenirs da minha alma.
Abri a caixa há algum tempo. Estava bem bagunçada, precisando urgentemente de alguma organização. Dentre muitos guardados antigos e outras aquisições recentes, encontrei muita coisa boa e outras nem tanto assim. Confesso que não foi fácil. Separei as lembranças felizes das que me causavam qualquer tipo de estranheza. Sim, devia contemplá-las, uma a uma. Então comecei pelas que me faziam sorrir. Como eram lindas estas lembranças! Embrulhei-as em papel de seda pra não amarelarem com o passar do tempo, era importante que eu as conservasse. Separei as lembranças tristes. Embora me fizessem chorar, vi o quanto é difícil a gente se desfazer delas, porque elas nos garantem um pouco de piedade. Mas o saldo não é positivo. Chega. Rasguei-as todas e joguei num saco preto de lixo.
Vi nomes de pessoas queridas, especiais, necessárias, outras inoportunas, oportunistas e irrelevantes. Passei a limpo a lista, risquei uns, desci outros, subi alguns. Há nomes escritos em papel especial e outros que gravei nas paredes da caixa. Os demais, não constam mais, simplesmente.
Ah, então vi os desejos... um a um... considerei os urgentes, os possíveis, os impossíveis, os caprichos. De acordo com o grau, deixei-os à mão para o momento certo. De certa forma, eles dão energia. E vi sonhos também. Estes estavam meio prejudicados. Uns bem amassados (ainda podiam ser recuperados), alguns rasgados, outros que não se encaixavam mais e uns poucos, bem poucos, novinhos. Precisei me desfazer dos que não tinham jeito e os demais, guardei-os com cuidado num belo embrulho transparente com um laço bem charmoso, que era pra se destacarem na caixa e serem notados. Além disso tudo, ainda havia um monte de sentimentos misturados. Estes precisavam de muita atenção. Tinha amor em grande quantidade, doçura, alegrias diversas, paz, alguns prazeres; ainda havia uma boa quantidade de bondade e esperança, mas vi que precisava renovar o estoque. Ocupando quase os mesmos lugares - o que era, sem dúvida, a razão da desordem - culpa, mágoa, medo, raiva, dúvidas, uma quantidade razoável de indiferença, que comprometia a bondade, um pouco de descrença, que espremia a esperança, vontades diversas. Estavam ali todos, brigando por espaço dentro da caixa. Olhei um a um, demoradamente. Ainda que entenda que todos os sentimentos são positivos porque ensinam, foi necessário colocar cada um no lugar certo, dentro ou fora da caixa. As coisas boas de viver e sentir, deixei à vista e à mão, pra usá-las mais vezes. Quanto aos demais sentimentos, conversei comigo mesma até resolver o que fazer com eles. Uns eu joguei fora mesmo, não tinham mais razão de estar ali, ocupando o lugar de tanta coisa boa que ainda poderia guardar. Mágoa, culpa, raiva e indiferença estavam enferrujando a caixa de bronze e certamente comprometendo o estado de todas as outras coisas. Medo, dúvidas, insegurança, entre alguns outros bem antigos, estavam agarrados no interior da caixa. Não consegui me desfazer de tudo, vou precisar continuar trabalhando neles, até que consiga desprendê-los. Sei que não vou me livrar de tudo, até porque acho que é bom manter uma certa dose de alguns, pra equilibrar. Outros, que não sei identificar direito, eu nem pensei duas vezes pra jogar fora, porque, ainda que não soubesse que nome dar, eu sabia muito bem como me faziam sentir e não era bom.
Enfim, parei diante da minha caixa de lembranças, agora mais arrumada. Doeu muito, mas me senti bem melhor. Pelo menos naquele instante eu tinha consciência de tudo que guardava e do que não mais. Depois de uma arrumação dessas, me sinto em ordem pra continuar. Fiz um inventário das coisas guardadas no meu coração, na minha valiosa caixa de tesouros. Agora é seguir em frente, tentando desarrumar menos.

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