Às vezes faz mais frio do lado de dentro do que do lado de fora. Do lado de fora alguém pode se agasalhar, mas por dentro, como é que alguém se aquece? Se lhe faltam abraços de alma, palavras de calma, respostas seguras e lampejos de ternura, como é que alguém se aquece?! Como é que se aquece quando lhe sobram perguntas e dores, castelos inacabados, sonhos interrompidos e saudades cruéis?! É fácil vestir um casaco, enrolar-se num cobertor e proteger-se do frio. Mas não é fácil vestir a camisa de uma ideia, desenrolar um sonho e proteger-se da frieza, a própria e a alheia.
E é aí, no choque das correntes, no impasse das temperaturas, que se faz necessário encontrar um refúgio. Construir ou reedificar algo que nos proteja contra a forte correnteza dos sentimentos, contra a torrente impetuosa das palavras, contra o vendaval indulgente das necessidades e contra o furacão avassalador das vontades. E pensar que essa tempestade toda acontece do lado de dentro...
Como é então que alguém se protege, quando de si mesmo não pode esconder-se? Tenho encontrado algumas respostas para esta indagação. Algumas já conferidas, outras em experiência.
Primeiro, é preciso identificar os próprios medos; nomeá-los um a um. Se são adquiridos, é possível desfazer-se deles. Em seguida, é preciso reconhecer os próprios limites, respeitá-los ou expandi-los. Uma mente expandida jamais volta ao tamanho anterior. Em decorrência, dizer "não" a tudo que seja necessário. Não dá para tornar-se presa do "sim". Um "não" dito a tempo, é altamente libertador. É possível evitar muito stress e problema com o uso desse monossílabo... Ainda que doa dizer ou ouvir, protege sobremaneira a alma e seus tesouros. E ainda há uma maneira, talvez a mais difícil, mas, sem dúvida, ilimitadamente benéfica: enfrentar-se. Enfrentar-me. Porque o meu maior oponente não está do lado de fora. Não é o outro que me rouba as oportunidades; sou eu que não as agarro. Não é o outro que toma a minha vez; sou eu que não lhe imponho os limites. Não é o outro que me leva ao erro; sou eu que consinto. Não é o outro que me desvaloriza; sou eu que não me respeito. E por aí vai... Ninguém pode me causar tantos danos quanto a minha própria mente. Você pode até não concordar comigo, mas tenho visto que pensar assim me torna mais responsável pela minha vida, mais autora da minha história. E, caso o outro se revele um mau amigo, basta que eu lance mão do "não", afinal, é uma pequena palavra a serviço da autonomia.
Com tudo isso e algumas reflexões a mais, tenho aprendido a tecer um casaco bem quentinho pra acolher a minha alma em dias frios. Eu mesma me visto. Me protejo. Nas minhas próprias tempestades enfrento as chuvas e os ventos. Eu e Deus comigo. E a minha força de vontade.
O importante é não ser escravo da lei do menor esforço. A gente tem que aprender a não se conformar, a se reconstruir e a não se fragilizar. Quem quer proteger-se a si mesmo e superar-se, deve deixar de passivo e se tornar o agente principal da sua própria superação. Conversar consigo mesmo, entender-se, não ter medo de se enxergar. E, enxergando-se, reconhecer os próprios erros, sem tanto punir-se, sem tanto diminuir-se...
Existe sabedoria no eterno movimento da Terra: a noite nos serve de descanso para recomeçar no dia seguinte e as estações preparam a natureza para as mudanças e os renovos. Aprendo que nada é tão permanente quanto a necessidade de superar as dificuldades. Nada é mais difícil do que superar-se. E nada é mais urgente. Uma questão de sobreviver às estações mais rigorosas e contemplar as flores.
