30 de março de 2013

Conversa Íntima

Observei o mar por algum tempo. Senti o barulho das ondas e ouvi o vento. Fiquei sentada na areia... não eram dunas, mas uma enorme extensão de areia. Me deixei ali, vendo a linha do horizonte. Um dos raros momentos que fico só comigo.
As ondas parecem tão assustadoras lá longe, mas vão perdendo a coragem, até que beijam a areia. Insistem, uma após outra, quase sem trégua. Num movimento contínuo, vão e vêm. Impressiona a quantidade de água e a força das ondas, a espuma que fazem quando quebram na praia. Fico pequena, de repente, diante de tudo. Que são os medos, a dor, os problemas?! Fecho meus olhos. Meus pensamentos mergulham na profundeza e na imensidão desse mar. Silêncio. Como há muito tempo não consigo. Só o barulho da água, uma vez ou outra um pássaro. De repente uma revoada buscando refúgio da noite em algum lugar. É um espetáculo sem ônus. O sol vai baixando lá no poente, vai mudando a cor e o aspecto do mar. Já não me parece mais tão ameaçador, embora mais imponente. As ondas diminuem o ritmo e a altura. Que incrível... tons de alaranjado e violeta pintam o céu que espelha a água... o fim da tarde é mesmo lilás, Djavan. O dia chegando ao fim me lembra que posso ter outra chance amanhã. Esse cair da tarde sossega tudo dentro de mim. Quase escuto meus pensamentos conversando comigo. Não sei como estará a maré amanhã. Também não sei como será o dia. E em não saber está a esperança, o sentido de viver pra ver! O que sei precisa bastar, pelo menos por hoje. Sei que o mar nunca será rio. Sei que guarda tesouros naufragados, objetos sem valor, coisas perdidas, histórias de pessoas. Sei que muda permanentemente. Sei que o vaivém das ondas traz à tona os encantos das profundezas, a alma do mar, detalhes que o pescador preocupado com sua rede não chegará a perceber. Mas o mergulhador sim. Sua alma intrigante, curiosa, impetuosa como as próprias ondas, o impele. Ele se atreve a ir fundo, onde muitos têm vontade de chegar, mas não a coragem pra tanto. Imagino que quanto mais fundo, mais limpo, mais lindo. Quanto à vida em terra firme, às vezes seria melhor ter asas pra ir mais alto. Pra sobrevoar circunstâncias, pra olhar de cima, pra enfrentar o desconhecido, pra vencer o medo.  Mas são pernas. E são passos. Um de cada vez.
O dia já foi. A sombra toma conta do céu. Tenho que ir embora com meus pensamentos... adorei conversar comigo! Sobre amanhã, sobre mim, sei o que me basta: vou deixar aqui na areia tudo que não quero mais ou que de alguma forma já não me serve.
-Pode pegar, Mar, e não traga de volta. Saio daqui levando o que aprendi e o que vi na minha vida até esta tarde de pura contemplação e deslumbramento. Saio daqui querendo ter tanto encanto e tanta força na minha alma quanto pude ver em suas águas...

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