1 de maio de 2014

Crescer dói


                                           

As pessoas se assemelham em muitas coisas e se distinguem por outras tantas. Tendenciosamente nos aproximamos daquelas que são diferentes de nós, talvez por um desejo inconsciente de crescimento. Tais pessoas são como alavancas que nos impulsionam a alargar nossos próprios limites. Mas isso não se dá sem que nos cause alguma dor...
"Crescer dói", disse a pediatra do meu filho quando fui a ela preocupada com uma dor que ele sentia nas pernas, por volta dos 5 anos de idade. Diariamente ele se queixava de dor e quase sempre na hora de dormir. Agora passo a mesma situação com minha filha, mas não me apavoro mais. Ela me pede: "faz massagem, mamãe!" E eu massageio as pernas dela, toco com amor até que ela dorme. O crescimento fisico provoca dores e fadiga. Ossos crescem, músculos esticam e precisam de exercício. É o corpo se preparando para uma nova fase. Assim também acontece quando o crescimento se dá por dentro. À medida que amadurecemos, mudamos, e nenhuma mudança é confortável. Cada grau que atingimos, cada nova percepção que adquirimos ou cada limite que superamos, nos prepara para uma nova etapa. É um processo de contínua transição. Podemos estar por um longo período em uma fase, mas vamos passar adiante de qualquer maneira. Seremos levados a isso pelas circunstâncias, por pessoas que a vida coloca em nosso caminho, pelo tempo mesmo. Assim, cada estágio da vida é um processo solitário e único. Somos eventualmente sacudidos e confrontados em nossas características e comportamentos habituais, e nossa resposta a isso nos levará à mudança necessária.  Toma tempo até que tudo se assente, até que as mudanças sejam assimiladas, e nesse tempo somos desafiados a refletir. Assim, a partir da reflexão, uma transformação se estabelece. Toda mudança de comportamento passa pela transformação do pensamento. Se não for assim, não se efetiva. É preciso enxergar-se, ver nitidamente os próprios defeitos e qualidades, pensar com equilíbrio a respeito de si mesmo e evitar rótulos que só atrasam o processo...
O que acontece, porém, é que olhamos para nós mesmos com óculos cor-de- rosa. Desculpamos e justificamos os nossos erros, certamente transferindo as nossas culpas. Mas para os outros olhamos com lentes de aumento. Não há desculpas. Dessa forma, bloqueamos nosso cérebro para qualquer mudança que seja necessária, porque não nos vemos corretamente e não enxergamos nossas próprias deficiências!
Quando olho para mim mesma com a visão ajustada, tenho a percepção real de minhas qualidades, defeitos, habilidades e necessidades. Posso moldar meu comportamento, mudar meus hábitos e criar outros, só em lançar um olhar honesto para o meu próprio coração! Vejo a dimensão das minhas falhas e o meu potencial de causar dano a mim mesma e aos outros. Vejo também as minhas virtudes, sem maquiagem, e quanto de bem sou capaz de fazer. Esse olhar gera humildade, o sentimento que inspira um comportamento simples, destituído de soberba e arrogância.
Só então posso atravessar meu processo solitário de crescimento, apropriando-me da sabedoria implícita na dor causada pelas mudanças que permiti. Crescer dói sim. Mas vale a pena. Ficamos maiores e melhores.

(Lei de Direito Autoral 9610/98)


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