Lembro-me de quando era menina e meu pai trazia pra casa, às segundas feiras à noite, um monte de "coquinhos" coloridos e de chocolate, comprados a varejo e embrulhados naquele papel cinza de padaria... Era o "dia da família" na nossa casa. Comíamos guloseimas, ouvíamos histórias da Bíblia e orávamos juntos, papai, mamãe, eu, meu irmão e minha irmã.
E também me lembro dos passeios de bicicleta com minha amiga de infância, que hoje ainda é minha amiga, quase 30 anos depois. Nós duas na Caloi Ceci rodávamos o quarteirão de casa. Brincávamos de pique-bandeira e queimado até a noitinha, na rua de casa, bonita e tranquila, que ainda guarda os mesmos vizinhos da época. Colecionávamos papéis de carta, andávamos de patins e conversávamos longamente no portão, até que a mamãe chamava pra entrar..
Saudosismo? Pode ser. Mas com reflexão.
Hoje é tudo tão diferente e potencialmente problemático, que parece que não tínhamos problemas naqueles tempos. Mas é claro que tínhamos! Poderia enumerar muitas dificuldades que presenciei na minha infância e adolescência e que hoje foram praticamente erradicadas devido à melhor condição de vida, maior acessibilidade e mais recursos. Por outro lado, meus filhos hoje enfrentam situações e participam de problemas que eu, na idade deles, não conheci ou então não eram tão relevantes à época.
O avanço tecnológico, a rapidez dos sistemas, a informatização e a assustadora midiatização de tudo que acontece contribuem muito pra que tudo seja mais fácil e contraditoriamente mais difícil. Compramos sem sair de casa, movimentamos contas bancárias sem enfrentar filas de banco, enviamos mensagens sem ir aos Correios, circulamos, adicionamos e seguimos pessoas às quais logo chamamos de "amigas" sem ao menos ter uma história com elas.
Se antigamente um desconhecido nos cumprimentava, era educação; hoje, desconfiamos da intenção. Fardas impunham respeito e segurança; hoje são, no mínimo, questionáveis.
Se antes percebíamos melhor as pessoas, a natureza e a vida ao redor, hoje olhamos muito mais para celulares, tablets e afins.
Compreenda-me, não estou censurando a modernidade, também sou adepta. Foi só um cansaço que bateu assim, de repente. Uma saudade da simplicidade, do riso fácil, da felicidade pura, do medo do escuro, do tempo em que pessoas e objetos eram palavras distintas. Saudade de mim também. Acho que a gente fica apegado a um espelho de um tempo passado. Falar das lembranças desse tempo nos leva pra ele... então recobramos aquela energia, aquela alegria, aquela entonação da voz, enquanto nossa memória se encarrega de nos dar as imagens, os sons, os cheiros...
Podem sim existir outros tempos melhores. Se foram no passado, não podemos mais interagir com eles, só mesmo recordar, como quem relê um bom livro. Se ainda estão por vir, também não podemos interagir com eles, porque por enquanto não existem. Assim, embora outros tempos nos pareçam melhores, não são o nosso tempo, no qual podemos interferir pra torná-lo ainda melhor. O único que nos pertence é o que chamamos de Hoje. E mais ainda de Agora.
Amanhã certamente vou lembrar de Hoje. E vão lembrar de mim também. Quero deixar saudade. Saudade da boa.
