8 de abril de 2013

A Tela de Cada Um


Conta a mitologia grega que Penélope, esposa de Ulysses, não só o amava muito como lhe era absolutamente fiel. Por 20 anos ela esperou o retorno do seu marido da Guerra de Tróia. A história desse longo retorno é tema da Odisséia, de Homero. Sem notícias alguma, sem mesmo saber se estaria vivo ou morto, o pai de Penélope sugeriu que ela se casasse de novo, o que ela recusou. Mas diante da insistência do seu pai e para não desagradá-lo, Penélope aceitou a corte de muitos pretendentes. Impôs apenas uma condição: só se casaria depois que terminasse de tecer uma tela. Assim ela esperava adiar o máximo possível, pois acreditava que Ulysses voltaria. Durante o dia ela trabalhava tecendo e à noite desfazia o trabalho. Quando sua estratégia foi descoberta, Penélope impôs ao pai uma outra condição: conhecendo a dureza do arco de Ulysses, ela afirmou que se casaria com aquele que conseguisse encordoar o arco. Foi então que um camponês, e apenas ele,  conseguiu fazê-lo. Era o próprio Ulysses que havia retornado. A espera de Penélope chegara ao fim.
Parece inusitado falar sobre isso, mas uma coisa sempre nos remete à outra. E nas minhas idéias e lembranças, qualquer coisa pode ser motivo pra uma boa conversa. Há algo muito significativo nessa história mitológica, que pode ser compreendido e aplicado no relacionamento com o outro. Posso ver a tela de Penélope como um meio de aquecer a sua solidão enquanto tece. Tece porque espera, porque tem saudade, porque se sente sozinha. Tece pra cuidar de si mesma. Cria e desfaz pontos, inventa e desfaz desenhos, vai fazendo e desfazendo os nós e os laços de sua tapeçaria. Vai criando e recriando novas nuances de si mesma... um longo e interminável trabalho. Assim também nós estamos tecendo nossas próprias telas enquanto esperamos. Cada pessoa tem algo pelo que esperar. Quem tem objetivos, espera; quem está em busca de, espera; quem está se recuperando, espera; quem sonha, espera. E quem espera, alcança. A esperança não deixa adoecer o coração. Acredito que a paciência seja uma das virtudes mais necessárias à vida. E pra que a gente aprenda a ser paciente, a lição é esperar. Esperar a raiva passar, a tristeza diluir, a mágoa desfazer, esperar a hora de falar, esperar a vez, esperar nenén, esperar acontecer, esperar chegar, esperar voltar, esperar, esperar... As situações que mais nos ensinam são exatamente aquelas contrárias ao que precisamos. Se preciso de mais paciência, vou precisar ser paciente. Se preciso aprender a perdoar, vou precisar ser perdoada. Se preciso aprender a gratidão, vou precisar agradecer. Se preciso aprender a dar valor, talvez seja necessário perder. É assim que a vida nos apresenta suas lições, é assim que Deus nos molda. Não aprendemos com os postes, com as cadeiras, com as portas... Aprendemos com as pessoas e até com os animais. Aprendemos ao nos relacionarmos ou simplesmente ao observarmos. Alguns aprendizados são verdadeiros laços na nossa vida. Enfeitam a nossa essência, nos tornam melhores. Outros são nós. Quem gosta deles?! Sempre fazemos um resmungo qualquer quando temos que desfazer um nó. A primeira coisa que pensamos é em cortar aquela parte, se não comprometer o resto. Mas com um pouco de paciência e uma certa habilidade o nó pode ser desfeito e a gente aprende a fazer um laço mais firme, mais bem feito...
Laços são coisas que unem, vinculos de afeto que a convivência ou a falta dela algumas vezes os transforma em Nós - problemas, dificuldades, conflitos, infidelidade, ciúme, tédio, relacionamento com as famílias, entre tantos outros. Os Nós não acontecem necessariamente pela falta de amor. Acontecem, mesmo onde existe amor; é da natureza humana, das limitações pessoais. Ou os evitamos, ou os desfazemos ou os afrouxamos até poder desatá-los. Nada é fácil, pq temos que investir muita energia pra conviver com insegurança, tristeza ou mágoa, ao lado de bons sentimentos. Só amor não basta pra desatar Nós. Tem que abandonar fantasias e idealizações pra iniciar uma conversa transparente e amorosa, sem discussões e ofensas, observando tom de voz, postura, expressões diversas. É quase uma magia falar verdadeiramente o que sente.
Laços, por mais bonitos que sejam, também se desfazem. Amizades se rompem, amores se vão, afinidades terminam. E isso acontece quando uma das partes desiste. Quando um não quer mais investir no outro. O fim do Laço não está na separação ou na ausência, porque às vezes a ausência fortalece o amor. O fim do Laço acontece quando acabam-se as palavras, quando a indiferença se instala, quando não se sabe nem quer saber. É no silêncio que os relacionamentos terminam, de forma natural ou hostil. Quando conversamos, estamos tecendo a tela. Dizer o que pensamos, o que sentimos, o que não gostamos, o que precisamos, reconhecer um erro, pedir perdão, pensar melhor, voltar atrás, tudo isso é trabalhar, é criar um ambiente favorável pra que as coisas que esperamos possam de fato acontecer...
Este é um trabalho da vida toda, um processo que não cessa desde que começado. E a tela, que todo dia pode apresentar novas cores e novos desenhos, vai se revelando a cada fio, a cada empenho. É só uma questão de saber esperar.


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