28 de setembro de 2015

A Mulher no Espelho



Ela se olhou no espelho. Onde é que ficou retida? Em qual espelho ficou preso o seu viço? Qual espelho fez refém a sua alegria? Onde ficou esquecida a sua esperança e em qual imagem ficaram congelados os seus sonhos? Ali, diante do espelho, aqueles poucos instantes capturaram a sua vida. Passado e Futuro brigando por um lugar no Presente da mulher, que mal podia viver o Hoje. A mulher que se via, quase não se reconhecia. Nem ela mesma sabia dizer quando e onde se deixou pra trás.
Foi então que, de relance, bem lá no fundo dos olhos refletidos no espelho, ela reconheceu a menina. Sim, a menina ainda existia! Não tinha marcas de expressão, a não ser por muito sorrir; sabia muito menos que a mulher de agora; seu olhar escondia um brilho esquecido. O rosto da mulher num lampejo se iluminou. Ela, que apenas se olhava no espelho, de repente se viu. Todas as faces perdidas em fases, num segundo se juntaram em uma única imagem, a única que de fato existia: ela mesma. 
Ela era a soma de seus amores e de suas dores. Era as lembranças que trazia e as lições que aprendeu das experiências que teve. Ela era o reflexo do que a inspirava. Era os livros que leu, os sonhos que sonhou e os que havia abandonado. Ela era os amigos que fez, os sorrisos que distribuiu, as lágrimas que chorou. Ela era o "sim" que negou e o "não" que deu. Era o resultado das escolhas que fez e das decisões que deixou de tomar. Ela era a soma dos anos passados até aquele exato momento. 
A mulher então entendeu: nada seria desperdiçado. Suas lágrimas, suas dúvidas, frustrações e medos, nada foi em vão. A menina ajudou a mulher. Daquele instante em diante, ela teria um futuro.

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