24 de março de 2015

Estranhos ou Desconhecidos?


"Não dê conversa a estranhos." Quem nunca escutou ou disse isso? Lembro de ouvir dos meus pais essa recomendação todos os dias, quando era criança. E ainda hoje, meu pai, aos 68 anos me diz: "cuidado, hein, não dê conversa a estranhos." Eu apenas sorrio, dou um beijo nele e respondo: "pode deixar, papai."  Automaticamente também falo com meus filhos: "nada de falar com estranhos, ok?"
Mas há alguns dias minha filha me surpreendeu com algo que me fez pensar. Contou que junto com o irmão haviam criado um "server" no "Minecraft" (e considero que você já tenha ouvido falar desse game...). Então começou a usar esses termos de internet, além de citar nomes de vários amigos que eu nunca vi e tampouco havia escutado. "Para mim, são estranhos", disse a ela. Foi então que minha filha saiu com essa: " mãe, eles são estranhos sim, mas são estranhos bons." Essa fala dela me fez refletir na antiga frase, de repente tão inadequada: "não dê conversa a estranhos." É que, na verdade, fazemos isso todos os dias! Nossos filhos fazem! Diariamente conversamos com estranhos na internet, separados pela tela do computador, do tablet ou do smartphone. Salvaguardando as devidas orientações e restrições, todos damos conversa a estranhos e não há como evitar, num mundo tecnológico, cibernético, integrando uma sociedade que opta pelo chat, SMS e aplicativos...
E fui buscar o conceito de "estranho". Segundo o dicionário, estranho é "aquilo que é incomum, extraordinário; que foge às normas; que incomoda." Assim, algo ou alguém estranho pode ser incomumente extraordinário, ou então ser alguém que foge às regras, cujo comportamento não segue os padrões considerados "normais".
O que sei dentro de mim, pensando com meus botões e sem pretensão de ser " a dona da verdade",  é que estranheza tem pouco ou nada a ver com a roupa, o cabelo, a cor preferida, as esquisitices, o gosto musical e outras tantas diferenças percebidas em alguém. Estranho mesmo é o comportamento, e isso pode afetar até os melhores relacionamentos. Então me dei conta e, confesso, não pude deixar de sentir uma ponta de tristeza e desalento: o tipo mais perigoso de estranho é aquela pessoa que não reconhecemos mais. Os outros desconhecidos talvez sejam amigos que ainda podemos conhecer.

Seja bem vindo!