Uma vez me perguntaram que poderes eu queria ter, se pudesse. Acho que respondi que queria voar, que queria ler os pensamentos das pessoas e também que queria me teletransportar. Mas nesse dia eu soube que todas as pessoas desejam as mesmas coisas, talvez não na mesma ordem...
Os desejos podem até ser os mesmos, mas os motivos sempre serão diferentes.
Se hoje me fizessem essa pergunta de novo, eu diria apenas que queria poder voar. E vou dizer porque abriria mão dos outros poderes....
Não queria ler os pensamentos das pessoas. Não mesmo. Essa curiosidade já superei. Quero saber o que alguém pensa quando a opinião dessa pessoa realmente me interessa porque vai fazer alguma diferença pra mim. Também as pessoas não gostariam muito, se pudessem ler meus pensamentos o tempo todo... Aliás, ninguém suportaria esse poder. Pensamentos são velozes, às vezes são cruéis, às vezes não correspondem às atitudes. Outras vezes são tão bons e puros que alguém poderia tirar proveito deles. Absolutamente não gostaria de ler pensamentos. Prefiro as alegrias surpreendentes, as decepções não anunciadas.
A ções e reações vêm do pensamento. Não posso controlar as reações de ninguém, mas das minhas ações e reações eu posso tomar conta. E isso já exige um grande esforço! Deus conhece os pensamentos todos e as palavras todas antes que saiam da nossa boca, porque ele é Deus! Não se cansa, não dorme, não tem oscilações de humor... Às vezes, quando sinto aquela vontadezinha de saber o que passa pela cabeça de alguém, eu logo balanço a minha pra lançar fora essa vontade... afinal, não tenho que entender tudo que acontece...
Também não queria mais me teletransportar. Essa vontade de estar onde não estou, essa ansiedade por outra realidade, essa sensação inquietante de inadequação... passou. Não penso em outras possibilidades, quero estabelecer as minhas. Quero viver de foco, força e fé. E essas três coisas não são possíveis enquanto não firmamos os pés, a cabeça e a vida no lugar onde estamos, no lugar que nos pertence. Isso eu também entendi.
Mas, voar...ah...isso eu queria muito! A idéia de ter asas é linda, transcedental... se elas me surgissem num repente e me levassem para bem longe, para mais alto, para mais além de tudo que os olhos alcançam ver... ah, como queria! Procuraria um lugar seguindo o horizonte, acima das nuvens, quem sabe mais acima da chuva, talvez para longe do calor quando o sol está escaldante, ou para longe do frio, quando as temperaturas caem tanto, que sentimos frio até na alma... Mas nem só pra tão longe assim eu ousaria voar. Também daria vôos rasantes, rápidos, certeiros, pra descansar um pouco, pra trazer frescor, pra ver a vida de outro ângulo , pra ver como tudo é pequeno visto do alto, ver as janelas abertas, ver as pessoas vivendo...
Sim, voar me encantaria. Dos três superpoderes este é o único que elevaria a minha vida acima de qualquer circunstância. No pensamento procuro me aquietar e me imaginar como se voando estivesse. Minhas asas nunca antes se desenvolveram; eram curtas, a vida toda, molhadas, sem força. Mas houve um dia em que perdi o chão. E foi então que me conheci de verdade. Quem sou, o que realmente gosto, o que tem valor pra mim, coisas em que acredito. Forjei minhas asas, comecei minhas aulas de vôo!... Encontrei meu rumo, posso voar pra onde for, mas tenho onde pousar. Todas estas palavras, todas as idéias, lembranças e outras conversas são vôos da minha alma e todas elas pousam e repousam no meu coração. São tão minhas quanto eu sou delas.
Cada dia que amanhece, agradeço porque estou melhor e penso: mais um dia pra voar! Me leva, Deus... me aponta o sol, porque é pra lá que eu vou.
